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FORMAÇÃO CONTINUADA, DOCÊNCIA E AUTO-ESTIMA.
Estes três aspectos do trabalho educacional estão intimamente ligados, exigindo de cada educador uma postura assertiva em relação a eles dado que, sem formação continuada não se pode imaginar um trabalho eficaz e, em conseqüência, não haverá uma docência eficaz. Sem essas duas, dificilmente um educador poderá sentir-se realizado em sua profissão o que desencadeará uma queda vertiginosa em sua auto-estima que, por sua vez, fará eclodir um círculo vicioso, onde, sem auto-estima não se busca a formação e, sem formação continuada compromete-se a docência.
Vamos, então, abordar a questão do ponto de vista de algumas fases que correspondem às atitudes dos educadores diante desta seqüência proposta para ser abordada. Vamos tratar de quatro fases. A primeira será a fase da inconsciência e da incompetência.
Nesta fase o educador, mesmo estando dentro de uma classe não consegue perceber que não sabe. Os saberes necessários para o bom desempenho do trabalho sequer são percebidos e, em decorrência, não há ligação entre o que se faz e os conhecimentos requeridos. Redunda, então, este comportamento numa alienação do profissional que, ao fim e ao cabo de seu trabalho, não consegue questionar-se sobre a validade do que faz, do que seria correto ou incorreto.
Não cabe, nesta fase, discutir ainda a questão da competência e dos saberes porque os problemas sequer são expostos ou percebidos.
Neste caso estamos diante de “dadores de aula”, cujo paradigma básico de inspiração pode ser um educador do passado de sua vida escolar. Carecem, estes educadores, de fundamentos que norteiem o trabalho. Em conseqüência podemos dizer que os investimentos feitos estarão irremediavelmente perdidos.
A segunda fase em que se encontram muitos educadores é aquela onde se percebe a existência de uma consciência aliada à incompetência.
Ao mesmo tempo em que o educador percebe que não está atualizado e precisa buscar mais conhecimento para garantir sua competência, reconhecendo que competência não é, apenas, uma competência mecânica ou técnica, mas precisa estar fundamentada em saberes, não há movimento algum na direção da aquisição de novos saberes necessários através da formação continuada. Há uma consciência daquilo que falta sem a busca daquilo que seria o suplemento necessário.
Aqui, nesta fase, o educador sabe que não sabe, porém, resiste ao ato de aprender, expondo até, aos seus colegas o quanto detesta formar-se em serviço e continuadamente. São os que estão aguardando a volta ao passado quando a escola era marcada muito mais pelas certezas que pelas imprevisibilidades. O comodismo é uma das características marcantes desses educadores e educadoras, geralmente pouco freqüentadores de congressos de educação.
A racionalização é uma constante. Argumenta-se, sobretudo, para defender a volta ao passado, justifica-se o impossível, tudo orientado na direção da não aquisição de mais conhecimento. Esse processo é o grande responsável pelos desânimos da classe dos educadores que culmina com o “muro de lamentações” instalado em cada sala de professores das escolas brasileiras.
É comum ouvirmos sobre a necessidade de se fazer experiências para que os educandos possam compreender uma determinada teoria. É muito comum ouvirmos falar da necessidade de laboratórios. A racionalização leva à defesa de laboratórios sofisticados e muito caros e, portanto, à impossibilidade de instalá-los. Assim, não desenvolvendo a criatividade que poderia muito bem ser aprimorada nas atividades de formação continuada, não se aprimora a docência e o auto conceito sobre competência torna-se ínfimo.
A terceira fase de nosso estudo e debate trata da consciência e da competência. Existe, nessa terceira fase, a consciência da necessidade de aprimoramento e, ao mesmo tempo, busca-se a melhoria da própria performance com afinco.
O educador sabe de sua capacidade e acredita nela. Sente-se atualizado e busca mais atualização. Questiona os próprios conceitos e pergunta-se sobre a necessidade de mais saber. Nesta fase há uma consciência da própria transformação.
Tudo isso é muito diferente das experiências que ocorrem em algumas partes do Brasil, onde as Secretarias Municipais acrescentam ao salário dos educadores algum valor para ser aplicado conforme o desejo do profissional, em formação continuada. Em contrapartida o profissional deverá apresentar à Secretaria os certificados de participação em congressos e eventos educacionais típicos de formação continuada. Tudo parece muito bom, porém, os que não atingiram esta fase desejam que os cursos e congressos terminem o mais breve possível, atrapalhando, às vezes, com conversas paralelas os que desejam aprimorar-se. Pior, os que não atingem esta fase não gostam de ouvir uma análise e uma síntese desse comportamento anômalo que pouca credibilidade dá ao educador ou educadora.
No entanto, quem está nessa terceira fase segue o princípio: “quem não pensa é pensado por alguém ou por uma estrutura”. Nesses casos é comum vermos profissionais que, por acreditar na formação continuada, a procuram e adotam para suas vidas muitos projetos de curto, médio e longo prazo.
Chegamos, por fim, à quarta fase de nossa proposta de reflexão: inconsciência e competência.
Parece uma contradição, porém, não é. Nada disso corresponde às características de uma consciência ingênua. O mais importante e que caracteriza essa quarta fase é o fluir natural do processo de formação continuada. O profissional não precisa estar continuamente provando para si mesmo sobre essa necessidade. Ela a procura sempre, como um processo já introjetado em sua vida profissional.
Caberia uma pequena comparação que explicaria melhor: quando falamos uma língua estrangeira e não temos o domínio absoluto dela, pensamos em nossa língua materna e, em seguida falamos em outra língua. Estamos fazendo constantemente uma tradução. Temos que pensar e, depois, começarmos a falar. Acertamos conscientemente. Num estágio mais avançado não pensamos mais em nossa língua materna. Falamos com total fluidez na outra língua com a certeza de que não faltarão palavras. Falamos sem precisar pensar para nos expressarmos.
Há o fluir do aprender a aprender, naturalmente, sem a necessidade de provas para si mesmo.
É redundante dizer que as fases mais cobiçadas deveriam ser a terceira e a quarta. Resta saber quando começar. Então, vale relembrar o texto poético de Pablo Neruda:
Morrer lentamente.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê...
Quem não se deixa ajudar...
Quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho...
Quem destrói seu amor próprio...
Quem se transforma em escravo do hábito...
Viva hoje, arrisque hoje, faça hoje.
Não morra lentamente.
GUILLEN, Terry, Assertividade, Ed. Nobel, São Paulo, 2001.
ARRUDA, Marcos. Humanizar o infra-humano, Ed. Vozes, 2003.
WERNECK, Hamilton, Quem decide pode errar, quem não decide já errou, Ed. Vozes. 1998.
TIBA, Içami, Ensinar aprendendo. Ed. Gente, São Paulo, 1998.
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