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ARTIGO
Prática Educativa: Processo versus Produto
 
Cipriano Luckesi  
 
   

Nos últimos tempos, especialmente a partir dos estudos sobre avaliação da aprendizagem e dos dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional sobre as configurações da avaliação processual ou contínua, têm aparecido nos nossos discursos e em nossas práticas pedagógicas uma compreensão, a meu ver, distorcida de que processo e produto são elementos dicotômicos, ou seja, teríamos de fazer uma opção entre “investir no processo” ou “esperar pelo produto”; e, ultimamente, tem-se apregoado explícita ou implicitamente que o que importa é investir no processo.

De fato, a realidade não funciona dessa forma, ou seja, um processo obrigatoriamente chega a um produto e um produto não existe, de modo algum, sem um processo que o gere. Nenhum resultado nos chega ex-abrupto, sempre há um processo que o produz. Essa distorção decorre das direções excludentes tomadas de modo privilegiado por nossas teorias e práticas pedagógicas ao longo do tempo.

A educação tradicional, de um lado, teve seus olhos centrados nos resultados da aprendizagem na escola. As aulas eram dadas e, depois, esperava-se que os estudantes, ao final de um determinado período de tempo letivo, manifestassem uma determinada aprendizagem desejada, em conformidade com um padrão um tanto indefinido e aleatório do que seria o “esperado”. Nesse modelo de educação, nem sempre, ou nunca, estivemos suficientemente atentos, tanto do ponto de vista do ensino como da avaliação, aos conhecimentos e às habilidades que os estudantes efetivamente devessem adquirir.

Ensinávamos, sem investir suficientemente no processo de capacitação do educando, e, depois, aplicávamos provas com questões aleatórias, tendo em vista classificar nossos estudantes em “aprovados” ou “reprovados”. Usualmente, nossos instrumentos solicitavam, aleatoriamente, alguns tópicos de conteúdos que deveriam ser aprendidos pelos estudantes, que, por terem essa característica de aleatoriedade, não se atinham “ao essencial” e muito menos “a tudo o que é essencial” na aprendizagem. As questões de uma prova tradicional, em sua forma usual, não eram elaboradas a partir de um plano, que estabelecesse todos os conhecimentos e habilidades necessárias que o estudante deveria adquirir. No geral, eram perguntas soltas, sem a seqüência e sem a consistência necessárias. A educação tradicional atribuía o fracasso escolar somente ao educando. Cotidianamente, dizia-se: “Se os estudantes não aprendem é responsabilidade deles”. Acima, usamos os verbos no tempo passado, porém devem também ser usados no tempo presente, pois que o que foi descrito continua a ser prática corrente em nossas escolas nos dias de hoje. Em síntese, sem um investimento efetivo e constante no processo de ensino e aprendizagem, a escola tradicional esperava e espera ainda pelo produto.

Por outro lado, a educação, que vem emergindo das novas abordagens processuais da prática educativa, nem sempre tem levado em consideração que há necessidade da produção de resultados significativos em termos de desempenho dos estudantes diante do que é ensinado e que deve ser aprendido. Falamos em processo e parece que somente ele importa, sem que estejamos preocupados com o produto. E, de fato, necessitamos das duas coisas. Necessitamos dos resultados, que são o produto de nossa ação e seria descabido que agíssemos sem desejar algum resultado; mas também necessitamos do processo, pois é através dele que chegamos aos resultados desejados.

Deste modo, afinal, necessitamos estar atentos aos processos, para que sejam consistentes em nível de produção dos resultados que desejamos e ansiamos; e, necessitamos estar atentos ao produto como parâmetro para o dimensionamento e controle de nossas ações. Os resultados não nascem espontaneamente; necessitam de ação consistente para serem produzidos. Ou investimos em nossa ação ou os resultados não chegam até nós. Mas, para que isso ocorra, necessitamos estar atentos aos resultados; na medida em que não basta agir de qualquer maneira, porém guiados pela configuração dos resultados definidos. Se dirijo-me ao cabeleireiro e anuncio o “modelo de corte de cabelo” que desejo, esse é o produto esperado que guia as mãos do cabeleireiro, para que ao final eu fique satisfeito com o resultado do trabalho realizado. Há um modelo de produto que conduz a ação. O mesmo deve ocorrer na prática educativa. Sem esse “modelo de resultado pedagógico” a nossa frente, não seguiremos em direção a ele. Um resultado não é dado, é construído passo a passo.

Assim sendo, necessitamos de agir com os olhos voltados para os resultados, o que quer dizer que processo e produto são duas facetas da mesma coisa; no caso, duas facetas da prática pedagógica. Processo, sem produto efetivo, é perda de recursos (tempo, dinheiro, pessoas, espaço físico...), mas, por outro lado, resultados, sem processos consistentes, são miragens; não existem. Um bom resultado depende de um processo consistente e processos consistentes produzem resultados efetivos.

Desse modo, privilegiar processo em detrimento do produto ou privilegiar o produto em detrimento do processo são duas distorções que merecem ser corrigidas, tanto na prática pedagógica como em qualquer outra prática humana. E, para tanto, haverá que se investir num processo efetivo e consistente que, conseqüentemente, produza os resultados que desejamos obter. O poeta Geraldo Vandré, em uma de suas canções, disse que “quem sabe, faz a hora; não espera acontecer”, ou seja, quem tem claro o desejo investe no processo para que esse desejo se transforme em resultados efetivos.

Avaliação processual ou contínua não significa que “qualquer resultado está bem, seja ele qual for”. Não! Avaliação, por ser processual ou contínua, deve subsidiar a construção dos resultados efetivamente desejados. E, de outra banda, para se chegar aos resultados que se deseja, importa investir muito no processo.

Para ajudar a compreender o exposto até aqui, vou trazer um caso relatado pelo professor Vitor Paro, em seu livro Fracasso escolar: renúncia à educação , no qual expõe os resultados de uma pesquisa sobre avaliação da aprendizagem numa escola de Ensino Fundamental. Ao final do primeiro dia de aula do ano letivo para uma turma de estudantes da 1ª série, a professora responsável pela regência da classe fez o seguinte comentário, dirigindo-se ao pesquisador: “Para o senhor ver, professor, hoje temos aqui na sala de aulas 33 estudantes, desses, somente 17 serão aprovados no final do ano”. Esse é o discurso de quem “espera os resultados”, dicotomizando processo e produto, o que quer dizer que não investe no processo tendo em vista produzir os resultados.

Estando no primeiro dia de aula de um ano letivo, ainda existiam 189 dias letivos pela frente, tendo em vista concluir o ano escolar, mas a professora já havia decretado o produto final negativo. Esse é o olhar voltado só para o produto, o que quer dizer que não fará investimentos no processo, pois que o produto final negativo já está previamente definido. O que essa professora fará com esses estudantes, nos restantes dias do ano letivo, se já tem seu destino traçado no primeiro dia de aula?

Por outro lado, uma professora que investisse no processo tendo em vista um produto positivo (sua meta de ação) diria: “Hoje, diagnostiquei que tenho, nesta turma, aproximadamente, metade dos estudantes com deficiências em seus conhecimentos e habilidades; mas, terei tempo suficiente durante o ano letivo para investir neles, para que cheguem ao final do ano sabendo o necessário”. Esta é a postura adequada de quem deseja investir no processo para obter produtos significativos, usando atos avaliativos a serviço do sucesso da prática educativa, ou seja, do investimento “no processo” para se chegar a “resultados efetivos”, o que significa que processo e produto são duas faces indissociáveis da mesma moeda; investindo-se no processo obtém-se resultados positivos e, a partir de um outro modo de expressar, resultados positivos decorrem do investimento nos processos.

A sinalização final é: produtos efetivos dependem de processos consistentes. É para isso que serve a ação educativa e seus procedimentos econômicos, administrativos e pedagógicos, inclusive a avaliação processual ou contínua. Para nada mais!

O resultado mais revolucionário que podemos esperar da educação é de que ela seja efetiva, habilitando e ampliando a consciência dos nossos educandos, ou seja, que, de um lado, os governos federal, estadual e municipal assim como os proprietários de sistemas privados de ensino injetem os recursos econômicos necessários para a prática satisfatória da educação (o que implica em condições adequadas para o ensino, em termos de espaços físicos satisfatórios, material didático e equipamentos satisfatórios, salários dignos para os educadores...) e, de outro, que os educadores efetivamente ensinem, investindo no processo, tendo a sua frente os resultados a serem construídos. Em síntese, o óbvio é o revolucionário: que todas as instâncias da estrutura educativa cumpram os seus objetivos, isto é, que simplesmente sejam colocadas a serviço da finalidade de todo o sistema: a aprendizagem satisfatória dos educandos.

 
   
Fonte: Site da Revista ABC Educatio  
 



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